domingo, 31 de julho de 2011

Tabuletas de Cera

    Como já mencionei anteriormente, na cultura ocidental o códice gradualmente passou a substituir o "livro" no formato de rolo tornando-se o precursor dos livros como os conhecemos em nossos dias. Eram muitas suas vantagens: ele podia ser aberto em qualquer página e mantido aberto facilitando a leitura. Suas páginas  podiam ser escritas de ambos os lados e como era mais compacto e protegido por capas era mais facilmente organizado e arquivado numa biblioteca e transportado. Posteriormente  deu lugar ao livro impresso.
    Uma das formas mais antigas de códices eram as tabuletas de cera utilizadas na Grécia e Roma antigas.
                                                   Tabuleta de 21x11cm com manuscrito em grego
                                                                   e estilete de bronze
    Eram pequenas tabuinhas de madeira com as bordas em relevo, como uma espécie de moldura, onde era depositada uma fina camada de cera líquida e sobre a qual, depois de fria e endurecida, se escrevia com um estilete. As bordas elevadas, além de conterem a cera, evitavam que os manuscritos fossem danificados quando fechadas. Tinham a vantagem de poderem ser apagadas, aquecendo-se ou raspando-se a cera , e reutilizadas.                          
                                                     Obra do pintor grego Douris, circa 500 B.C.
                                                  Homem grego escrevendo numa tabuleta de cera.      
    A expressão tabula rasa  - tábua raspada - tem origem nesse procedimento significando página em branco e tendo sido utilizada como metáfora por Aristóteles para designar a mente desprovida de conhecimento.
    Acredito que os "quase-computadores", rs, denominados tablets também remetam à antiga prática que em inglês é chamada de wax tablet.
    Quando reunidas através de furos por meio de fios, couro ou aros de metal podem ser consideradas códices, principalmente porque a própria etimologia da palavra codex - bloco de madeira - sugere que tenha evoluído a partir das tabuletas de cera. A da primeira foto tem 4 furos porque originalmente fazia parte de um códice.

Códice de tabuletas de cera
                                                                         
    O conjunto mais antigo de tabuletas de que se tem notícia foi descoberto em Pompéia  na casa de um banqueiro, é composto de 127 unidades datando de 15 a 62 D.C. e está no Museu Nacional de Nápoles.

                                                          Jovem da alta sociedade de Pompéia
                                               com o estilete na boca e as tabuinhas de cera na mão.             
    A cera empregada era composta basicamente de cera de abelhas, óleos extraídos de plantas, pigmentos de carvão e tinha uma coloração marrom escuro.
    Os estiletes podiam ser de madeira, metal, osso ou marfim. Eram pontudos no lado com que se escrevia e em forma de espátula (achatados) no outro para que se pudesse "apagar" o que foi escrito.
    As tabuletas eram usadas para registros de contabilidade, cartas e documentos legais tais como certidões de nascimento.  
                                                     Certidão de nascimento do menino romano
                                                         Marcus Cornelius Iustus, c. 103 A.D.

    Já os rolos de papiro ou pergaminho eram destinados a propósitos mais nobres como literatura e poesia. Por isso os vemos lado a lado nesta natureza morta da casa de Julia Felix em Pompéia.
                                                                        
 
    Pretendo, em breve, fazer um códice de 2 tabuletas de cera que certamente exporei aqui mesmo nesta postagem.

     Fotos: 1- The Schuyen Collection
                   3- Landesmuseum für Kunst und Kulturgeschichte in Bremen, Germany.
                   5- University of  Michigan's  Library

sexta-feira, 29 de julho de 2011

"Encadernação Copta"

    É provável que muitos já tenham visto algum diário ou sketchbook moderno elaborado com a "chamada" encadernação copta como o modelo abaixo, com miolo de papel cor "creme" 140g, revestimento de couro vermelho e costuras long stitch e copta com linha de linho irlandesa.


   Inspirada nos manuscritos encontrados enterrados dentro de um grande vaso nas proximidades da cidade de Nag Hammadi no Egito por um jovem camponês em 1945, caracteriza-se pela união de uma ou mais brochuras (ou cadernos) de papel dobrado apenas por meio de costura, sem a utilização de cola, com revestimento rústico e amarração de couro.                                                                      
   A Biblioteca de Nag Hammadi ou biblioteca gnóstica cóptica, como é chamado o conjunto de manuscritos, consiste em uma coleção de 12 livros e 8 folhas de um 13º num total de 52 breves tratados religiosos e filosóficos traduzidos do Grego para o Copta no séc IV A.D.  por autores gnósticos anônimos no Alto Egito, provavelmente monges. Num formato mais prático e econômico do que os habituais rolos e que permitia escrever de ambos os lados de folhas individuais, similar aos livros atuais, esse tipo de livro é chamado de codex (em Latim) ou codices, no plural.

Biblioteca de Nag Hammadi
                                                                                
    "Os códices de Nag Hammadi situam-se em um ponto de transição entre os rolos de pergaminho e os códices; da palavra escrita preservada em folhas que foram enroladas até a palavra escrita preservada em folhas que foram reunidas como em páginas dentro de capas. Essa transição, ajudada por aqueles que produziam os códices de Nag Hammadi, mudou para sempre a maneira pela qual a palavra escrita podia ser comunicada. Em muitos sentidos, o processo de encadernação de Nag Hammadi lembra o processo de encadernação empregado até hoje."  Marvin Meyer

Um dos manuscritos da Biblioteca de Nag Hammadi
                                                                               
    O bom estado de conservação em que foram encontrados deveu-se em grande parte ao fato de terem sido escritos em folhas de papiro. "Se tivessem sido fabricados usando a polpa de madeira em lugar do papiro, os textos da biblioteca teriam se desintegrado em pó há muito tempo" M. Meyer
Eram revestidos e amarrados com couro.
    Atualmente fazem parte do acervo bibliográfico do Museu Copta do Cairo.  
  Vale a pena ver uma reprodução fidedigna de um desses códices disponibilizada para consulta pela Biblioteca Digital da Universidade de Iowa no link:

                                   http://digital.lib.uiowa.edu/u?/binding,294

    Hoje em dia muitos encadernadores usam essa referência na concepção de seus modernos projetos. 
    Eis aqui mais alguns trabalhos criados por mim a partir dessa fonte:

                                                                                                                                                              
    Uma excelente indicação para consulta sobre essa técnica, muito didática e ricamente ilustrada é o Volume III da série "Non-Adhesive Binding" intitulado: "Exposed Spine Sewings" de Keith Smith.       
      
                                                                        
Bibliografia:
"The Nag Hammadi Library" - James M. Robinson, HarperSanFrancisco
"Mistérios Gnósticos: As Novas Descobertas" - Marvin Meyer, Pensamento

segunda-feira, 25 de julho de 2011

"O Rato de Biblioteca"

            Ou seria "O Traça de Livros"?
                 
"Der Bücherwurm" -  Carl Spitzweg  (1808-1885)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Encadernação: Ainda sobre teares

            Pra quem não se animar a fazer o seu próprio tear existem as opções de comprar um como este meu, regulável, feito pelo Sr Hélio, telefone: (011) 2294-7962:
                                                                                 

ou ainda este outro que além de regulável tem a vantagem de ser desmontável tornando-se compacto e portátil, feito pelo Sr. Nilton, marido da minha querida colega Sônia cujo e-mail é: art.patchwood@gmail.com

     
ou então um dos disponíveis na Entrelivros, telefone: (011) 5579-3382, também muito bons mas não reguláveis nem desmontáveis.                                                                                                                                                       

Encadernação: quatro tipos de costura

           Esses dias encontrei um vídeo no Youtube sobre 2 livros costurados simultaneamente, quer dizer, ao mesmo tempo no mesmo tear, com 2 tipos de costura diferentes, vídeo esse composto de 4 partes que embora esteja em italiano é tão bem feito que dispensa tradução. Vale a pena conferir: 
http://youtu.be/fCVq6StJ9o4
http://youtu.be/A5dBagQpYgs
http://youtu.be/7tJhzMBPAXE
http://youtu.be/4dZAf7fhW88

            E outro vídeo, em inglês, ensinando a costurar um único livro com barbantes:
 http://youtu.be/BScrCpPtGPs

            E ainda outro, também em inglês, que ensina costura com cadarços:
http://youtu.be/IBxZp8PJF2o

           Interessante também é a dica nos primeiros vídeos, de como enfiar a linha na agulha de modo a não fazer volume no seu orifício evitando assim alargar os furos nos cadernos durante a costura.       
           Lembrando que é simples construir um tear de costura para encadernação: com umas ripinhas de madeira, uma tabuinha, um serrote, lixa, cola de madeira e uns pregos ou parafusos, já está! Qualquer marceneiro ou loja do tipo Peg&Faça cederá sobras de madeira que não utilizará mais e talvez até faça a cortesia de cortar pra você.     
           Eu mesma fiz o meu:
                                                                             
             Suas medidas são:

                                                                            
                                                                                  
                E para prender os barbantes na parte de cima dá-se um nó e embaixo fixa-se com um pedaço de fita crepe:                                                              
                                                                             
      
              Ou ainda é possível usar-se uma cadeira:

             Ou o que a imaginação sugerir!
            
              Créditos: Foto 4 - CaiLun.info
                             Foto 5 - Jeff Peachey
                          

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Encadernação: Prensa vitoriana

                                                                         
         No ano passado adquiri esta adorável prensa de ferro maciço com lindos detalhes em bronze sólido, c1850, provavelmente originária de Londres, Inglaterra.  Não é a minha única prensa mas com certeza a mais bonita e valiosa.     
      Posteriormente, navegando pela rede, acabei me deparando com a foto de uma loja de encadernação   em Sheffield, na Inglaterra, onde a proprietária Sue Callagham aparece usando a mesma prensa, apenas numa versão maior. Ainda vou ter  o capricho de escrever pra ela pedindo maiores especificações sobre a prensa porque ela deve saber TU-DO!

                                                                                 
           Segundo a repórter que fez a matéria da foto, os encadernadores da cidade - 3 ao todo e todas mulheres - vêm praticando um negócio que reporta a milhares de anos e que tem mudado muito pouco em todo esse tempo.
          "Entrar na loja de Sue ...", diz ela, " é como voltar no tempo. Sue, de 59 anos, inclina-se sobre seu pequenino balcão com os óculos dependurados na ponta do nariz. Rolos de couro, tecidos de revestimento e papéis irrompem de uma prateleira atrás dela, dúzias de vidros de tinta empoeirados espipocam por toda a loja e ferramentas de aparência meio arcaica pendem das paredes.
            Numa era onde livros novos, mecanicamente encadernados, são comprados em supermercados sem alma, a um tanto quanto antiquada empresa de Sue Callagham é uma brisa de ar fresco.
        ... 'Eu uso todas as mesmas ferramentas que têm sido usadas por centenas de anos. Encadernação é um dos poucos negócios que não se desenvolveu com a tecnologia', diz Sue.
           Para ilustrar o seu argumento, uma série de gravuras de encadernadores trabalhando mais de cem anos atrás adorna as paredes. 'Veja, aquele é um tear de costura - o que eu uso é muito parecido,' ela diz.
        ... A experiência de Sue, que ela construiu ao longo dos últimos 35 anos,  a proveu com um sólido filão de clientes que vão desde estudantes precisando encadernar suas teses e gente querendo as revistas encadernadas, a trabalho de restauro, o favorito de Sue.
          'O que eu mais gosto é do trabalho de restauração, apesar de ser uma enorme responsabilidade. É do desafio que eu gosto; algumas vezes pego um livro e penso: por onde no planeta eu começo?,  mas eu adoro trazê-lo de volta à sua antiga glória.'"
             A versão original e na íntegra deste artigo está em:

            
                    

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Encadernação: Chanfrando, dourando, ... preservando a tradição!

                                     http://youtu.be/hTnwep3wGC0

E aqui está mais um vídeo, de uma encadernadora  - Daphne Lera - que aparece primeiramente chanfrando as bordas de um pedaço de couro com uma chanfradeira (paring knife) sobre uma pedra litográfica. Isso é feito para diminuir a espessura do couro nas bordas que serão viradas para dentro das capas evitando que se forme volume esteticamente indesejável.  As chanfradeiras, especificamente com essa finalidade, não são facilmente encontradas no Brasil. Falo por experiência própria pois cansei de procurá-las na região do Brás, nas lojas especializadas em couro e instrumentos para sapateiros.  Nos links à direita há várias lojas que vendem para o Brasil. A Hewit, na Escócia, é a que oferece o frete mais barato.
Mas como a “Santa Improvisação” é a padroeira dos encadernadores desamparados, rs, vale pegar uma faca “maneira” e tentar “formatá-la” de acordo com os modelos originais.  Uma colega já fez isso e disse que deu certo.
Existem vários modelos de chanfradeiras:
                                         
As inglesas (à esquerda) são as mais baratas. Os profissionais costumam enrolar e colar uma tira de couro  onde se segura a faca para não machucarem as mãos.
Já a utilização de uma pedra litográfica como base para chanfrar o couro tem o propósito de proteger a lâmina da chanfradeira.
                             

 É o material ideal mas como é quase impossível encontrar uma por aqui, o pessoal do métier usa o mármore mesmo. Aquele cinza claro rajadinho (sem muito polimento) parece ser o melhor. Aliás: se alguém encontrar uma pedra litográfica à venda me dê um toque, sim?
O segundo instrumento que a encadernadora usa é uma plaina raspadeira manual (spokeshave):
                            
                                                    
que é comumente usada pelos marceneiros. No nosso caso serve para chanfrar áreas maiores do couro desde que sofra uma pequena adaptação no posicionamento da lâmina para que não o rasgue.
A seguir vê-se a Daphne aplicando carboximetilcelulose ou CMC ou metilcelulose ou cola de papel de parede (que é um pó branco) - diluída em água numa consistência de geléia - na lombada do livro para amolecer a cola velha. É claro que o vídeo foi editado, porque ela teve que esperar o CMC agir por algum tempo para depois removê-lo junto com a cola antiga com o auxílio de uma espátula. O CMC é um aglutinante neutro que agrega a água de uma forma gelatinosa que não encharca o papel.
Encerrando o vídeo ela aparece dourando manualmente as capas com lâminas de ouro finíssimas acentuando que certamente essa é a etapa mais difícil da encadernação manual (ou tradicional, ou artística, ou clássica). Geralmente quem domina essa técnica se especializa unicamente nessa função e é chamado dourador, ganhando bem mais que um encadernador. Esse procedimento se faz utilizando instrumentos de douração chamados florões, pallets, gouges, rodas, componedores e tipos:

  
Por fim a Daphne diz o quão gratificante é saber que o trabalho dela é um legado que vai beneficiar as gerações futuras.

Uma publicação muito legal e bem ilustrada sobre este assunto é:
 “Encadernação” de Josep Cambras, Editora Parramón, em português de Portugal ou “Encuadernación” em espanhol. O meu comprei na Livraria Martins Fontes da Av. Paulista. É um livro que vale a pena ter.

Créditos: Fotos 1 e 3 - Talas
               Foto 2 - Instituto Geográfico Português
               Fotos 4,5 e 6 - eBay
               Foto 7 - Hewit
               Fotos 8 e 9 - P&S Engraving




terça-feira, 12 de julho de 2011

Bem-vindos!

     Esta é a estréia do meu blog!
     Os assuntos serão principalmente papéis e afins.
    Aos poucos irei postando fotos dos livros que faço, dos diários, dos diversos instrumentos e materiais que possuo, das minhas recentes descobertas e de trabalhos de amigos também. Algumas dicas e truques, um tutorial interessante, links legais e por aí vai.
   Desde já quero agradecer às queridas professoras Beth Csuraji, da ABER, e Tamiris Ciuccio, Juliana Lucca e Carolina Müller do projeto idealizado pela Profª. Elisa M. Kerr "Arte de Encadernar" na Universidade São Judas Tadeu, pela paciência, desprendimento e extrema competência com que me orientaram no aprendizado da arte dos livros.
   Só para inaugurar, vou adicionar uma foto que achei na pág da web desfaziendoentuertos: é o corte anatômico de um livro mostrando sua constituição interna ...

... e um vídeo da CBS (com 30seg de comercial no início!) que mostra o ateliê dos sonhos de qualquer "bookmaker" onde uma encadernadora americana há 30 anos na profissão exibe alguns de seus trabalhos. Ela enfatiza que para cada impressão na capa de um livro é necessário aplicar os instrumentos (florões, rodas etc.) várias vezes e que cada um dos desenhos é formado por vários instrumentos diferentes, o que requer meses de trabalho em um único livro. Ela já restaurou cerca de 800 livros raros e criou centenas de projetos como o de "A Festa de Babette", "Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal" e "As Aventuras de Huckleberry Finn" que levou um ano e meio para ser concluído e foi premiado. Há também uma visita à Morgan Library em Nova Iorque que, segundo o curador, conta com o maior e mais extraordinário acervo de encadernações manuais da América. Ainda uma entrevista com um bibliófilo e outro artista que encaderna as revistas da Oprah e os roteiros dos cineastas Martin Scorsese e Spike Lee e que conclui: "Todo mundo deve ter, pelo menos uma vez na vida, uma encadernação artística!" Espero que gostem!

    Fiquem à vontade para comentar, perguntar, trocar idéias e tudo mais.
    Voltem sempre!